The Wayback Machine - https://web.archive.org/web/20090218163953/http://veja.abril.com.br:80/210499/p_154.html
A morte de um estudante em São Paulo
revela o nível de barbárie a que se chegou
Edison Tsung Chi Hsueh, um brasileirinho filho de imigrantes, poderia ter se convertido num s�mbolo das oportunidades que, apesar de tudo, o Brasil oferece. De fam�lia pobre, desimportante, chegada h� menos de tr�s d�cadas ao pa�s, filiada a uma col�nia (a chinesa) mais do que minorit�ria e uma religi�o (budista) idem, e ainda por cima t�mido e desenturmado, mesmo assim conseguiu entrar na Faculdade de Medicina da USP, uma das melhores do Brasil. Em vez disso, virou s�mbolo da barb�rie brasileira. O brasileirinho Edison, de 22 anos, n�o passou do primeiro dia de aula. Morreu de trote.
O caso tem sido noticiado na imprensa. No dia 22 de fevereiro, primeiro dia de aula, houve, como � costume na faculdade, trote e churrasco � beira da piscina do centro acad�mico. Mais de 200 estudantes compareceram, entre veteranos e calouros. No dia seguinte, quando um funcion�rio foi limpar a piscina, toda manchada da tinta com que tinham sido pintados os calouros, descobriu um corpo no fundo. Edison, que n�o sabia nadar, n�o sobrevivera � festa. Era seu, o corpo l� no fundo. Afogamento, diz o laudo do Instituto M�dico Legal. Como? Por qu�? Homic�dio ou acidente? Mist�rio. Mudez. Entre os 200 estudantes presentes, ningu�m sabia de nada, ningu�m viu. Ou, se soube e viu, n�o se disp�s a revel�-lo.
O caso � intrigante a mais de um t�tulo, um dos quais a hip�tese, apavorante, de um pacto de sil�ncio, vers�o tupiniquim e estudantil da omert� mafiosa. Na semana passada a promotora Eliana Passarelli, com base no laudo do IML, disse ter conclu�do que houve homic�dio e amea�ou indiciar pelo crime a totalidade dos presentes. O diretor da faculdade, Irineu Velasco, veio por sua vez a campo para afirmar que o laudo n�o conduzia, necessariamente, � tese de homic�dio. A meio caminho entre uma promotora talvez apressada na condena��o e um diretor talvez apressado na absolvi��o, extraem-se duas premissas e uma conclus�o. Primeira premissa: ningu�m, n�o sabendo nadar, e n�o possu�do por alguma urg�ncia suicida, se joga numa piscina. Segunda: custa imaginar um acidente que passe despercebido num ambiente onde se encontram 200 pessoas. Donde se conclui, estando afastadas, pelo laudo, as hip�teses de colapso card�aco, consumo de drogas ou bebedeira, que, seja por a��o, seja por omiss�o, seja pelo clima geral de prepot�ncia e intimida��o, t�pico dos encontros entre veteranos e calouros, o brasileirinho Edison, como se afirmou no primeiro par�grafo, morreu de trote.
O que nos leva a outra conclus�o � a de que chega de trote. J� cansou. Acumularam-se esc�ndalos demais. Torturas contra calouros, � moda do regime militar (Cruz das Almas, BA, 1991). Estudante morto a tesouradas (Osasco, SP, 1991). Queimaduras por nitrato de prata (Campinas, SP, 1994). Espancamentos, humilha��es para todos os gostos. No ano passado, em Sorocaba (SP), dois estudantes de medicina e um m�dico j� formado (que h� com as faculdades de medicina?) puseram fogo num estudante mais jovem que dormia, causando-lhe ferimentos atrozes. Diante de tal panorama, alguns clamam contra o "trote violento". � um equ�voco. Como definir onde termina a brincadeira e come�a a viol�ncia? A proibi��o tem de ser geral e irrestrita. Contra o trote, e ponto. Toler�ncia zero � este � o rem�dio.
Mesmo porque "trote violento" � redund�ncia. Todo trote � violento. � uma viol�ncia cortar o cabelo, ou pintar o corpo, de quem n�o quer. Mesmo para quem quer, � viol�ncia. Pois, embora talvez n�o tenha consci�ncia disso, est� se submetendo a um jogo de domina��o que refor�a um dos piores tra�os da sociedade brasileira. Esta � a sociedade, n�o nos esque�amos, do "sabe-com-quem-est�-falando?". A sociedade do "sou superior porque sou rico e voc� � pobre", "porque sou branco e voc� � preto", "porque moro no centro e voc� no sub�rbio", "porque ando de carro e voc� � pedestre". Em suma, a sociedade da prepot�ncia como pr�tica contumaz de um grupo sobre outro. No trote, joga-se o jogo do "sou superior porque sou veterano e voc� calouro". Com isso, refor�am-se os maus instintos numa sociedade j� de si antidemocr�tica e antiigualit�ria. E faz-se isso logo com a juventude.
Os estudantes universit�rios costumam alardear ideais democr�ticos e s�o loucos por uma passeata contra o poder. Quem pratica o trote n�o tem moral para isso. As faculdades deviam proibir o trote em qualquer de seus graus e vers�es. N�o faz�-lo � abrir m�o da fun��o de educadoras, anterior � de transmissoras de conhecimento. Penas duras deviam ser previstas para os transgressores. Processos contra as faculdades que n�o o fizerem, e onde venham a ocorrer trotes, devem ser incentivados. Caso algo se mova nessa dire��o, em conseq��ncia do epis�dio do brasileirinho de olhos puxados que se chamou Edison Tsung Chi Hsueh.... bem, claro que isso � pobre consolo, agora que est� tudo perdido para ele, mas v� l� o lugar-comum: caso isso ocorra, seu sacrif�cio ter� servido para alguma coisa.